Joguei um dicionário fora

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No nosso apartamento existe um cômodo apelidado “ninho”, onde só entram meus gatos e eu. Uma escrivaninha do século XIX, uma pequena subdivisão abarrotada de lembranças e uma estante modular colorida comprada num sebo. Dando uma olhada rápida, é o que eu chamaria de bagunça organizada. Sei onde está tudo e ninguém pode tocar, quanto mais mexer. As mãos arrumadeiras de longos dedos da minha esposa chamam isso de pardieiro.

Resolvi arrumar. Limpar. Passar pano. Ordenar. E principalmente – para o êxtase da consorte – jogar fora o que não serve. Papéis antigos são fáceis, registros e contas, idem. Coletâneas de revistas, rascunhos, envelopes, cartolinas, tudo bem. Aí caiu lá de cima um velho dicionário já sem capa, faltando as quinze páginas iniciais. Atingiu meu pé e doeu bastante.

Era um Aurélio, palavra essa que se tornou até um verbete. Lembro-me das centenas de vezes que o consultei, em tempos pré-internáuticos. E imagino quantas palavras estão perdidas por aí, logo na letra “a”, a mais usada da nossa língua portuguesa. Num arroubo de saudades e paixão, comecei a folheá-lo a esmo.

Primeira palavra foi palimpsesto. Um palavrão! Tenho vários rascunhos aqui em casa, passados e repassados. Mas nunca reaproveitados. Talvez a política brasileira possa ser um palimpsesto mal ajambrado que nem num dicionário consta.

Meu pai se vivo fosse já protestaria no terceiro parágrafo, pois o Caldas Aulete sempre fora superior ao Aurélio. Seus cinco volumes, a edição de 1986 era exemplar. As correções de pronúncia, a origem e evolução da língua portuguesa, uma preciosidade. Hoje tudo é on line, perdemos a beleza do farfalhar, do cheiro de novo e velho. Até da traça, inimigo-mor de um bibliófilo.

Segunda palavra foi dímero. Exatamente como o Brasil se encontra, dividido. Para médicos e biólogos essa é fácil, mas não comum. Para laboratórios de exame complementares nunca antes nesse país foi tão solicitado a variante “D”. Para mim apenas uma dúvida: se coloco os de língua portuguesa junto com os estrangeiros na estante às minhas costas.

Fui contar quantos dicionários tenho, somaram vinte. São poucos para a minha ignorância, mas como sou novo, acredito que possa adquirir outra vintena no decorrer da minha curiosa vida de curioso. Morri de rir quando fui checar o número “phrase books”, aqueles dicionarinhos de bolso que insisto em carregar pelo mundo afora. Foram quinze. Definitivamente sou um néscio.

Terceira palavra, essa até um anglicismo; serendipismo. Uma descoberta, uma surpresa insólita. Acredito piamente que seja agora o que necessitamos em tempos de recolhimento pessoal e financeiro. A economia e a saúde andam juntas. Não preciso de dicionário para saber esse significado. A união é a chave do segredo que não está guardado, mas oculto. Quiçá, enevoadamente encoberto por gritarias, especialistas do nada, por “fake news”.

Clamo como humilde leitor e escritor. Rogo-vos que juntemos nossas diferenças e façamos uma sopa quentinha de fraternidade. Por favor ajudem uns aos outros. Gentileza, disposição, desvelo e real interesse, importam. Talvez vários de vocês tenham que recorrer ao dicionário para perscrutar melhor alguns signos e significantes que aqui coloquei. Perdoem-me, foi por querer.

Minha linguagem é na maioria das vezes, clara. Mas num mundo de falsas colocações, de evidências científicas deturpadas e pobreza vocabular, preciso dizer: é necessário conhecimento de causa para opinar, para escrever. Como a maioria das pessoas bem informadas que conheço me respondem hoje: “– Eu não sei.”

Como nada sei só peço mais compaixão, mais atos e palavras de conforto. O dicionário que caiu no meu pé cortou, inchou e doeu. Mas me dói muito mais o estrago que o vazio de intenções faz, assim como interesses escusos que vêm por trás de palavras infladas e sem significado que ouço e leio hoje em dia.

JB Alencastro

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